terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Projeto - Cuidar da Terra: perspectivas para uma ética do cuidado com as relações biófilas no planeta


1 Introdução

Hegel, no início de sua obra “Enciclopédia das ciências filosóficas” diz:

pode-se talvez dizer que em nosso tempo a Filosofia não desfruta nenhum favor e simpatia particular, pelo menos não aquele reconhecimento de outrora que fazia dos estudos da Filosofia a imprescindível introdução e alicerce para qualquer formação científica ou profissional (HEGEL, 1997).

Hoje não parece que está diferente a situação da Filosofia. Geralmente não encontramos a Filosofia no imaginário das pessoas como algo útil para a vida, sendo que muitos não se dão ao “trabalho” de pensar, mas entendemos que seja extremamente importante pararmos para refletir sobre determinados acontecimentos que nos cercam e nos preocupam. Um deles é a preocupação com o destino do nosso planeta e o cuidado que devemos ter com a vida que nele habita. Esta pesquisa tem como objetivo refletir sobre os problemas advindos da exploração dos recursos naturais sem uma preocupação com os prejuízos provocados e suas consequências para a vida como um todo. Para isso contamos com a reflexão e contribuição dos filósofos que têm como ocupação principal refletir e questionar as implicações decorrentes das atitudes humanas.

Ao longo da história da Filosofia, desde os seus inícios até nossos tempos, muitos homens e mulheres tiveram a preocupação de analisar e questionar o modo de ser e agir das pessoas. Atitudes do cotidiano e formas de pensar influenciam no todo da sociedade humana mudando aos poucos ou rapidamente as maneiras de comportamento individual e, consequentemente, social. O ser humano, como ser relacional, sabe que seu modo de ser influencia o seu ambiente e para além dele pode até influenciar formas de pensar e ser que atingem toda a humanidade.

Entendemos que, para o homem, o mundo é uma realidade objetiva, independente dele, possível de ser conhecida. É fundamental, contudo, partirmos de que o homem, ser de relações e não só de contatos, não apenas está no mundo, mas com o mundo. Estar com o mundo resulta de sua abertura à realidade, que o faz ser o ente de relações que é. (FREIRE, 1999, p. 47)

“Estar com o mundo”, nas palavras de Freire (1999) e ao nosso entender, significa estar em conexão com o todo do universo, na preocupação de que todos possam continuar a existir. A humanidade é apenas uma parte, ainda que muito importante, do todo universal que lhe dá suporte. Respeitar a vida que existe no universo é condição para continuarmos a existir. Na mesma esteira de pensamento encontramos Boff (2004) que diz que é preciso construirmos um novo estado de consciência a fim de criarmos uma atitude de maturidade e sabedoria que nos conduza a busca de novos caminhos, que sejam diferentes e mais sensatos daqueles trilhados até agora. Para isso é necessário que haja a reflexão, a conscientização e a formação de opinião que leve à mudanças radicais na forma de ser e de viver das pessoas.

Para corroborar com esse pensamento chamamos novamente Freire (1996, p. 30-31), pensador e homem de ação, que procurou despertar nas pessoas a consciência de que cada um pode se tornar sujeito de sua própria vida. A partir do momento em que somos sujeitos de nossas próprias ações passamos a viver a partir de uma nova ótica e de uma responsabilidade comum. Ele dizia:

ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. (...) Por que não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina, a realidade agressiva em que a violência é a constante e a convivência das pessoas é muito maior com a morte do que com a vida? Por que não estabelecer uma intimidade entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? Por que não discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso dos dominantes pelas áreas pobres da cidade? Porque, dirá um educador reacionariamente pragmático, a escola não tem nada que ver com isso. A escola não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos, transferi-los aos alunos. Aprendidos, estes operam por si mesmos.

Trazemos esta reflexão para dizer que precisamos necessariamente conscientizar as pessoas de que a vida deve estar em primeiro plano. Essa conscientização acontece quando há uma nova forma de entender o mundo, começando nas famílias, nas escolas, nas universidades. As ideologias do sistema capitalista têm colaborado, e muito, para tornar as pessoas egoístas, individualistas e consumidoras desenfreadas. Reverter essa forma de pensar e viver é um desafio enorme quando nos propomos apontar as falhas e ajudar a entender os prejuízos gerados pela busca incessante de lucro.

O filme “A história das coisas”[1] aponta que “o coração do sistema” é o consumismo e que nesse sistema não está contemplada a preocupação com a qualidade de vida das pessoas. Somos incentivados a consumir cada vez mais para alimentar o sistema e gerar lucro e não questionamos sobre os prejuízos causados por essa forma de viver. Nesse sentido reflete Freire (1999, p. 51-52):

uma das grandes, senão a maior, tragédia do homem moderno, está em que hoje é dominado pela força dos mitos e comandado pela publicidade organizada, ideológica ou não, e por isso vem renunciando cada vez, sem o saber, à sua capacidade de decidir. Vem sendo expulso da órbita das decisões. As tarefas de seu tempo não são captadas pelo homem simples, mas a ele apresentadas por uma ‘elite’ que as interpreta e lhas entrega em forma de receita, de prescrição a ser seguida. E, quando julga que se salva seguindo as prescrições, afoga-se no anonimato nivelador da massificação, sem esperança e sem fé, domesticado e acomodado; já não é sujeito. Rebaixa-se a puro objeto. Coisifica-se. Apesar de seu disfarce de iniciativa e otimismo, o homem moderno está esmagado por um profundo sentimento de impotência que o faz olhar fixamente e, como que paralisado, para as catástrofes que se avizinham.

Percebemos nitidamente essa dominação do sistema sobre as pessoas quando vemos tantas vidas sendo destruídas a serviço do lucro. Aqui podemos citar, a título de exemplo, os trabalhadores da fumicultura ou outros cultivares que necessitam de muitos agrotóxicos para produzir. A vida dessas pessoas está em constante risco e destruição, contudo não há uma preocupação com a qualidade de vida das pessoas e sim com a geração de lucro para as empresas. Some-se a isso que o lucro dos produtores é o mínimo, e se for levado em conta que a sua saúde está sendo destruída, podemos dizer que eles estão tendo um grande prejuízo.

 2. Resultados

Essa etapa do estudo constitui-se de pesquisa bibliográfica, de apresentações em seminários e de pesquisa de campo, através de contato com as Secretarias da Agricultura de alguns municípios da região para levantamento de dados sobre a existência de produtores orgânicos na região. O levantamento de dados de produtores orgânicos na região, foi feito através de contato telefônico, como consta a tabela 1. Percebemos que, alguns dos responsáveis pelas Secretarias da Agricultura não têm muito conhecimento sobre o que significam produtores orgânicos, outros explicaram que é muito difícil chegar a uma produção inteiramente orgânica e outros, ainda, disseram que existem dificuldades de se conseguir o certificado de produção orgânica.

Levando em consideração essas colocações, iniciamos uma pesquisa sobre o significado, a viabilização e a expansão da Agricultura Orgânica. Dos municípios que foram contatados pouquíssimos tem alguma produção orgânica de alimentos e nenhum possui certificação. Na tabela a seguir estão expressos os resultados da pesquisa.

 



Municípios da região e sua situação com relação

à produção de alimentos orgânicos

 
Município
Telefone
Produção de alimentos orgânicos
Alpestre
(55) 3796 1122
Não possui cadastro de produtores de alimentos orgânicos, mas estão organizando um banco de dados para este ano.
Boa Vista das Missões
(55) 3747 1090
Não tem produtores de alimentos orgânicos.
Caiçara
(55) 3738 1212
Possui alguns produtores de alimentos orgânicos, mas não são cadastrados.
Dois Irmãos das Missões
(55) 3751 1051
Não tem produtores de alimentos orgânicos.
Palmitinho
(55) 3791 1123
Não tem produtores de alimentos orgânicos.
Pinhal
(55) 3754 1105
Não tem produtores de alimentos orgânicos.
Pinheirinho do Vale
(55) 3792 1160
Possui dois produtores de alimentos orgânicos, que comercializam em feiras, mas a produção não é totalmente isenta de agrotóxicos.
Seberi
(55) 3746 1122
Possui uma agroindústria de chás medicinais orgânicos, mas que ainda não recebeu certificação.
Taquaruçu do Sul
(55) 3739 1080
Não possui produtores de alimentos orgânicos.
Derrubadas
(55) 3551 1854
Não possui produtores de alimentos orgânicos.
Erval Seco
(55) 3748 1188
Tem alguns produtores de alimentos orgânicos em fase inicial, de preparação do solo e cultivo de sementes, como amendoim, gergelim e girassol. Como é uma fase de estágio, ainda não possuem certificado.
Iraí
(55) 3745 1288
Não tem produtores de alimentos orgânicos.
Jaboticaba
(55) 3743 1122
O município já teve produção orgânica, em parceria com o Colégio Agrícola de Frederico Westphalen, há uns 3 anos, mas no momento não tem mais produtores de alimentos orgânicos.
Rodeio Bonito
(55) 3798 1155
Não têm produtores de alimentos orgânicos.
Vista Gaúcha
(55) 3552 1160
O município tem produtores de alimentos orgânicos, como laranja e verduras, mas não tem certificado ainda.
Vista Alegre
(55) 3730 1020
Possui produtores de alimentos orgânicos.
Frederico Westphalen
(55) 37446784
Não possui produtores de alimentos orgânicos.

Tabela 1 – produtores de alimentos orgânicos na região

 

Agricultura Ecológica é um termo utilizado para designar modelos de agricultura que se preocupam em preservar a vida do solo, das plantas e das pessoas que são os consumidores finais, na maioria das vezes, dos produtos gerados. Essa forma de cultivo procura manejar de forma correta os recursos naturais. Segundo Penteado (2000, p. 1),

a Agricultura Ecológica é um sistema de produção comprometido com a saúde, a ética e a cidadania do ser humano, em contribuir para preservar a vida e a natureza. Busca utilizar de forma sustentável e racional os recursos naturais, empregando métodos tradicionais e as mais recentes tecnologias ecológicas na exploração da terra.

O ramo de maior atividade dentro da Agricultura Ecológica é o orgânico. O sistema de produção orgânica não utiliza insumos sintéticos, como fertilizantes, pesticidas, reguladores de crescimento e aditivos alimentares, no caso dos animais. Esse sistema de produção usa a prática de cultivos rotativos, adubos orgânicos, adubos verdes, controle do uso do solo, entre outros. Dessa forma, a produção de alimentos produz impacto benéfico sobre o meio ambiente e sobre a saúde humana. Além disso, pode ser uma fonte de renda e de geração de empregos.

Penteado (2000, p. 2, 7) define os benefícios da Agricultura Orgânica da seguinte forma:

na Agricultura Orgânica busca-se a qualidade de vida, evitando danos à saúde do homem, degradação do meio ambiente, perdas de resistência das plantas e os prejuízos à população de inimigos naturais. [...] Enquanto a agricultura convencional está baseada na tecnologia de produtos (inseticida, herbicida, fungicida, nematicida, bactericida, adubos solúveis, etc.) a Orgânica trabalha com a tecnologia de processo, ou seja, no conjunto de procedimentos que envolvem a planta, o solo e as condições climáticas.

Consideramos de grande importância essa forma de cultivo, pois no contexto desta pesquisa vem responder ao cuidado com a terra e a vida, o qual viemos salientando sempre de novo. Precisamos incentivar essa prática e procurar junto ao poder público verbas que possam ajudar os agricultores que se comprometam com essa forma de produção.

3 Conclusão

As respostas aos problemas levantados na pesquisa não se encontram prontas e dadas, elas podem ser buscadas num caminho coletivo que se constrói dentro de um grande conjunto de fatores a serem levados em consideração, como incentivo a uma vida mais saudável, cuidado com o ambiente, financiamentos para a produção orgânica de alimentos. Parte desse trabalho de pesquisa é também procurar as soluções, e de começo procuramos conscientizar as pessoas e fazê-las refletir a respeito dos problemas gerados pela forma de ser e de viver, pela maneira de tratar a terra e a vida. Os resultados se fazem ver de forma tímida, mas crescente, à medida que as pessoas tomam consciência da necessidade de uma forma de viver que seja mais saudável para si mesmas e de cuidado para com o planeta. Sempre levando em conta que

cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro [...]. Um computador e um robô não têm condições de cuidar do meio ambiente, de chorar sobre as desgraças dos outros e de rejubilar-se com a alegria do amigo. Um computador não tem coração. Só nós humanos podemos sentar-nos à mesa com o amigo frustrado, colocar-lhe a mão no ombro, tomar com ele um copo de cerveja e trazer-lhe consolação e esperança. Construímos o mundo a partir de laços afetivos. Esses laços tornam as pessoas e as situações preciosas, portadoras de valor. Preocupamo-nos com elas. Tomamos tempo para dedicar-nos a elas. Sentimos responsabilidade pelo laço que cresceu entre nós e os outros. A categoria cuidado recolhe todo esse modo de ser. Mostra como funcionamos enquanto seres humanos” (2004, p. 33, 99).

O cuidado com a terra e com a vida, objeto de estudo dessa pesquisa, deve estar em primeiro plano. Como já dissemos, esse cuidado deve estar acima de qualquer preocupação com o lucro, ou com a manutenção do sistema. Esse foi criado pelas pessoas e se ele não está funcionando, ou melhor, se está prejudicando, é responsabilidade das pessoas que o criaram questioná-lo e mudá-lo. Sabemos que isso não é tarefa fácil e nem simples, contudo temos a convicção de que estamos fazendo a nossa parte ao refletir e ajudar na busca de soluções para resolver os problemas apontados.

As ressonâncias do cuidado se refletem no amor como fenômeno biológico que faz os seres humanos se sentirem interligados consigo mesmos e com o universo que os cerca. Juntamente com o amor vem a “regra de ouro”, a justa medida, “que se alcança pelo reconhecimento realista, pela aceitação humilde e pela ótima utilização dos limites, conferindo sustentabilidade a todos os fenômenos e processos, à Terra, às sociedades e às pessoas.” (BOFF, 2004, p.112).

 A complexidade da presente pesquisa está no desafio de encontrar espaço num sistema que não respeita a vida, mas que visa o desenvolvimento econômico e a geração de lucros exorbitantes, que se tornam prejudiciais à sobrevivência humana e planetária. Quase não encontramos espaço para refletir sobre o respeito e conservação da vida, nem mesmo dentro das nossas universidades. Dessa forma, podemos nos perguntar: como será possível formar uma consciência de cuidado com a vida e tomar atitudes que não visem somente lucros econômicos, mas que sejam capazes de desenvolver qualidade de vida?

Assim como não posso usar minha liberdade de fazer coisas, de indagar, de caminhar, de agir, de criticar para esmagar a liberdade dos outros de fazer e de ser, assim também não poderia ser livre para usar os avanços científicos e tecnológicos que levam milhares de pessoas à desesperança. Não se trata, acrescentemos, de inibir a pesquisa e frear os avanços, mas de pô-los a serviço dos seres humanos. A aplicação dos avanços tecnológicos com o sacrifício de milhares de pessoas é um exemplo a mais de quanto podemos ser transgressores da ética universal do ser humano e o fazemos em favor de uma ética pequena, a do mercado, a do lucro. Entre as transgressões à ética universal do ser humano, sujeito à penalidade, deveria estar a que implicasse a falta de trabalho a um sem-número de gentes, a sua desesperação e a sua morte em vida (FREIRE, 1967, p. 131).

Como desenvolver a prática do cuidado com a vida em sua totalidade? Este é um grande desafio que se apresenta a todos, mas principalmente aqueles que têm qualquer responsabilidade com o todo, ou com grupos sociais, tais como: governos, professores, famílias, responsáveis por grupos diversos. A prática do cuidado com a vida começa dentro de cada ser humano que é concebido com respeito, amor e cuidado. À medida que ele se desenvolve sabendo-se amado e respeitado, consequentemente saberá respeitar e amar tudo o que está a sua volta. Dessa forma, desenvolvem-se na consciência de cada pessoa valores éticos fundamentais para cuidar da vida em sua plenitude.

Pretendemos avançar em nossa pesquisa buscando formas de conscientização das pessoas para que procurem mais qualidade de vida, respeitando os ecossistemas           e a biodiversidade. Na verdade, precisamos formar uma nova visão de mundo baseada em princípios éticos fundamentais, para que as pessoas se deem conta de que é necessário um novo modo de ser no mundo e de ver o mundo. Ou seja, é necessário levar em conta que a terra é um organismo vivo, dotado de partes insubstituíveis e não-renováveis e de que cada coisa possui uma finalidade inata. Essa consciência nos fará olhar com mais respeito e consideração àquela que é nossa fonte de vida e subsistência, a terra.
 

BIBLIOGRAFIA

BELLINO, Francesco. Fundamentos da Bioética: aspectos antropológicos, ontológicos e morais. Bauru: Edusc, 1997.

BOFF, Leonardo. Ética da Vida: a nova centralidade. Rio de Janeiro: Record, 2009.

______________. Ética da Vida. Rio de Janeiro: Sextante, 2005.

______________. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

_______________ Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

_______________ Pedagogia da Esperança. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

_______________ Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2004. 29 ed.  

HEGEL, Georg Wilhelm Friederich. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio. São Paulo: Loyola, 1997.

MURARO, Rose Marie. BOFF, Leonardo. Feminino e Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.

PENTEADO, Sílvio Roberto. Introdução à Agricultura Orgânica. Campinas: Grafimagem, 2000.

TORRALBA ROSELLÓ, Francesc. Antropologia do Cuidar. Petrópolis: Vozes, 2009.

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

www.youtube.com/watch?v=7qFiGMSnNjw, acessado em outubro de 2012.




[1] Disponível em: www.youtube.com/watch?v=7qFiGMSnNjw, acessado em outubro de 2012.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Cuidar da Terra é cuidar da Vida

Cuidar da Terra é cuidar da Vida
Introdução
Em busca do sentido da vida e envoltos em nosso próprio mistério, passamos pelo mundo e nele deixamos nossas marcas. Enquanto buscamos conhecer-nos e viver a vida que nos é dada, faz-se necessário que reflitamos e tomemos atitudes que preservem a nossa vida e a vida do planeta Terra. É preciso cuidar da Terra para cuidar da Vida.
Casa comum e possibilidade da vida, a terra precisa ser respeitada como um dom à humanidade e a todas as espécies que nela habitam. Cuidar da terra e cuidar da vida são ações profundamente entrelaçadas. Uma depende da outra em muitos sentidos. Somos profundamente vinculados à terra, dela tiramos o nosso sustento material, o alimento para a nossa sobrevivência, a matéria-prima para a construção de nossos abrigos. É da terra que nascem as belezas naturais que nos alegram, a terra sustenta as nossas vidas e quando morremos ela nos acolhe. Assim, podemos nos perguntar: qual é o sentido da vida sobre a terra? Como podemos desfrutar da terra e conservá-la? Que atitudes são coerentes com a opção pela vida?
Enquanto buscamos as respostas, a vida segue seu curso, a terra sofre as consequências da pretensa racionalidade humana que se vangloria da capacidade de dar conta de tudo. Bellino (1993, p.82) comenta que o ser humano esquece de que é mais que razão, confia na sua capacidade de transformar todas as coisas, mas esquece de desenvolver-se na totalidade do seu próprio ser.
Refletir sobre a vida como um todo exige esforço e mudança acerca do nosso conceito de vida, considerando-a como uma totalidade relacional. Amar o ser humano, a natureza e a vida como um todo, reconhecer e dar-lhes o devido valor é necessário para uma relação de harmonia e cuidado e para fazermos escolhas que geram vida plena.

1 Cuidado, pressuposto para a vida

A corrida em busca do desenvolvimento e do progresso como fim em si mesmo acabou por suplantar o bem das pessoas e da própria sociedade. Um dos maiores cuidados da sociedade moderna foi a preocupação com o desenvolvimento. Contudo, o que podemos comprovar é que deixamos à margem o elemento sem o qual não é possível e não tem razão de ser nenhuma das nossas buscas: a vida.
O mundo é um complexo de relações frias, movidas pelos interesses do mercado, onde o cuidado com a vida não entra em questão. As relações são instrumentalizadas e as vidas estão desconectadas, apesar de todo o avanço dos meios de comunicação. Por causa disso a vida tornou-se desesperança e vazio existencial. A complexidade da vida moderna não foi acompanhada pelo nosso desenvolvimento integral e, agora, nos vemos impossibilitados para controlar os efeitos que resultaram de nossas “atitudes transformadoras”[1] na própria vida do planeta terra.
A reversão do quadro é complexa e desgastante, pois, há muitos fatores a serem considerados. E onde ninguém quer sair perdendo, sobra para quem não tem voz: a terra. Contudo, ela tem manifestado, num grito mudo, mas que se faz ouvir, o seu desgaste e cansaço com os maus-tratos recebidos. Cuidar da terra, lugar comum para a vida acontecer, é uma atitude essencial à preservação das espécies vivas que a habitam.
O cuidado com a vida é um pressuposto para que ela exista. Cuidar exige o conhecimento integral e a preocupação com o todo do universo. O que é bom e agradável para um pode ser prejudicial para o todo. “Do tudo é permitido ao homem ao tudo é permitido sobre o homem o passo é breve” (BELLINO, 1993, p. 78). Se tudo nos é permitido perdemos a noção do espaço reservado a cada um e passamos a viver como se o outro não existisse ou fosse algo ou alguém que está ao dispor da exploração de quem chega primeiro.
A cultura individualista que toma conta de boa parte das pessoas faz com que percamos a noção do todo. Isso pode ter consequências alarmantes, pois não calculamos a grande repercussão que pequenos atos somados podem provocar. Por exemplo: poucos de nós se preocupam com o destino do seu próprio lixo, com a água que gastamos à toa todos os dias, com pequenas fofocas e mentiras que praticamos sem medir as consequências. Entretanto, na situação atual um pequeno ato de descuido pode comprometer a vida da terra e consequentemente toda a vida que nela habita. Assim, também um pequeno ato positivo pode ser capaz de mudar a vida de uma pessoa e até a vida do planeta, desde que o incentivemos e multipliquemos. A partir dessa reflexão podemos concordar com Torralba Roselló (2009, p. 41) que diz: “o cuidar é a base moral sobre a qual tem que se reformar nossas obrigações profissionais e nossa ética”.
Cuidar é o pressuposto para a vida. Mas, o que entendemos por cuidado? Primeiramente, o cuidado supõe uma preocupação com a totalidade[2]. Nós fazemos parte de uma cadeia de relações, e por sermos o único “animal pensante”, cabe-nos a responsabilidade de cuidar que a cadeia da vida, criada de forma perfeita, não seja quebrada por nossas ações irresponsáveis e impensadas. O cuidado exige que encontremos o equilíbrio entre dominar a natureza e respeitar os seus domínios, pois nela existe o inefável, aquilo que não nos é dado conhecer ou dominar e que foge ao nosso alcance. O inefável é o limite para a dominação.
Existe um mistério na vida, que não podemos conhecer e aí reside um aspecto do cuidado, que é o respeito diante do outro, do diferente, do desconhecido. É preciso resgatar, à condição humana, o estupor que pode nos mostrar a realidade, pois “é o estupor que pode nos revelar o real, a exterioridade, o mistério do mundo e da vida” (BELLINO, 1993, p. 132).
O mistério não significa necessariamente o desconhecido, mas pode ser a simplicidade que desperta o êxtase, a necessidade de simplesmente estar em contato, ver, admirar e também usufruir, com respeito, aquilo que nos é dado, mas que é também o outro e do outro. Conforme Bellino (1993, p. 135),

é no contexto das relações, no ser querido, desejado, amado pelo outro que se personaliza o ser humano (...). O respeito e a dignidade não só são fundados em algumas peculiaridades características das quais é dotado o ser vivo (homem ou animal), mas, sobretudo sobre o valor atribuído por quem o ama e que o deseja e que estabeleceu com ele uma relação.

No contexto desta pesquisa, podemos concluir a partir da reflexão do autor citado que é indispensável amar a natureza e a vida para cuidá-las e dar-lhes o devido valor.
A natureza segue seu próprio curso, mas nossa ação sobre ela pode transviar seu ritmo normal. As consequências da nossa falta de cuidado e de ações prejudiciais ao planeta terra já se fazem sentir e o único culpado por isso é o “homo faber”, carente de sabedoria e de respeito à vida. E porque não dizer que o culpado é o ser humano carente de espiritualidade? Boff (2009, p. 84), apresenta a espiritualidade como a “atitude que põe a vida no centro, que defende e promove a vida contra todos os mecanismos de diminuição, de estancamento e de morte”.
Além das nossas atitudes individuais e comuns para o cuidado com a vida é necessário que tenhamos tempo e espaço para cuidar da vida colocando-a no centro, defendendo-a e promovendo-a. É preciso termos tempo para a vida, ou até mesmo, darmos tempo para a vida. Acontece no dia a dia uma verdadeira disputa do tempo, afinal são tantas coisas importantes que vão se empilhando e que precisamos fazer. Com isso, acabamos fazendo muitas coisas para melhorar a vida, mas a vida vai passando e se perdendo, num verdadeiro paradoxo. Tiramos, muitas vezes, o tempo e o espaço que deveriam ser dedicados à vida, na tentativa de fazê-la melhor. Ter tempo para viver é o imperativo que deve estar em vista. Não só viver bem, mas cuidar que o outro também possa viver bem.
Objetivamente, necessitamos de um espaço para o cuidado que deve ser dado pela sociedade, ou pelo modelo institucional. Pensando nisso, podemos questionar: o modelo de vida apresentado pela sociedade capitalista dá espaço e tempo para uma vida com qualidade e dignidade, dá espaço para o cuidado com a vida? O consumismo desenfreado favorece ou prejudica a vida como um todo? O cuidado com a vida exige tempo e espaço, e precisamos valorizar o que de fato é essencial: a preservação da vida em si mesma. Para isso, certamente, temos que repensar a forma de vida imposta pelo sistema capitalista e, até mesmo, precisamos renunciar a algumas facilidades momentâneas que são prejudiciais à vida quando vista na sua totalidade.

2 Cuidar da terra para que exista a vida

Depois de um amplo e complexo descuido pela vida da terra, há um lento retorno ao essencial. Aqui e acolá percebemos pequenos movimentos de conscientização e efetivação de projetos em defesa da vida do planeta terra. Finalmente, alguns estão se conscientizando que o conhecimento e o desenvolvimento científico, por si mesmos, não dão conta de todos os nossos problemas e necessidades. A ciência não é absoluta, tanto que deve permanecer aberta ao que pode surgir de novo, caso contrário ficará estagnada. Portanto, ela não conhece todos os fatos e nem mesmo, conhece tudo de um único fato.
A modernidade trouxe consigo uma mudança de perspectiva. Passamos de uma visão espiritual para uma visão científica das coisas. Com isso, alcançamos muitos avanços e melhorias, mas perdemos o sentido para o sagrado e o mistério que envolve as relações da natureza e da humanidade. E aqui, podemos concordar com Bellino (1993, p. 89) que diz: “A ciência moderna é um saber que nos diz como o mundo é, da finalidade e do sentido da vida não diz nada”.
Com a supervalorização da ciência perdemos outros aspectos igualmente importantes. Saber qual é a finalidade e o sentido da vida é essencial para que a conservemos e a respeitemos, desfrutando de todas as suas possibilidades sem deixarmos de observar os limites necessários para que a vida continue a existir. O grande erro da ciência moderna foi esquecer que o ser humano não é só razão e matéria, mas que há algo para além daquilo que é empírico. As realidades espirituais foram esquecidas, porém, qualquer um dotado de razão é capaz de reconhecer que a felicidade, a tristeza, a coragem, a astúcia, só para dar alguns exemplos, fazem parte da vida e são elementos que não podemos mensurar, excluir ou sufocar.
O que a ciência moderna conseguiu produzir, ignorando a finalidade e o sentido da vida, foi um desencantamento com o mundo e a própria vida. Daí, até a destruição e o descaso o caminho foi curto. Se a vida não tem finalidade e sentido não há porque preservá-la e cuidar para que não se perca. Retomar o sentido da vida para cuidar dela é tarefa urgente e necessária para que a mesma continue a existir e possamos gozar inteiramente dos benefícios que essa consciência nos traz.
O cuidado com a terra nos remete ao reconhecimento de que toda a vida que existe brota da terra. Há elementos que fazem parte da terra e também são parte dos seres vivos. Boff (2004, p. 76) conclui, após analisar uma série de fatores que aproximam os seres vivos das substâncias que compõem a terra:

Por sentir-nos filhos e filhas da Terra, vivenciamo-la como Mãe generosa. Ela é um princípio generativo. Representa o feminino que concebe, gesta, e dá à luz. (...) Da mesma forma que tudo gera e entrega à vida, ela também tudo acolhe e tudo recolhe em seu seio.

Sendo parte da terra, deveríamos sentir-nos “dentro de uma complexa comunidade com seus outros filhos e filhas” (BOFF, 2004, p. 77). Como resultado dessa consciência de pertença mútua haveria de surgir um profundo respeito e amor pela terra que sustenta a vida como um grande início gerador que se pode relacionar à fecundidade resultante do princípio paternal-maternal que une pai e mãe na geração de uma nova vida.
A lógica do progresso e do desenvolvimento, como são entendidos atualmente, nada tem a ver com o respeito e o cuidado pela terra e, consequentemente, com toda a vida que nela habita. É preciso atentar para um novo paradigma de comportamento que podemos resumir no pensamento de Hans Jonas (in BOFF, 2005, p. 38):

Um notável filósofo da ética da responsabilidade, Hans Jonas, formulou, na linha de Kant, um novo imperativo ético para nossos dias: ‘comporta-te de tal maneira que os efeitos de tuas ações sejam compatíveis com a permanência da natureza e da vida humana sobre a terra’.

3 Cuidar da vida em sua plenitude

Assistimos, atualmente, a um profundo descaso com a vida e a uma cultura da morte, como consequência da perda do sentido da vida. O fato se deve a uma noção perversa da liberdade individual. Quando entendemos por liberdade o poder absoluto sobre os outros (certamente os mais fracos) e contra os outros, o resultado é a morte. O outro se torna alguém que deve ser eliminado, ou pelo menos subjugado, para que não atrapalhe os interesses dos detentores do poder e da riqueza, que pertence a todos.
O mesmo ocorre com a terra, com a natureza, quando passa a ser usada para servir aos interesses perversos de uns poucos que se acham os donos de tudo. Mas, a natureza tem clamado com fortes gritos que ela já não suporta mais o desrespeito. A vida é dom e não propriedade. Precisamos chegar à conclusão de que é necessário defender e promover a vida como um todo e defender todas as vidas. Se a vida é dom, ela depende da responsabilidade de cada um, por isso torna-se tão frágil e necessitada de cuidado.
A busca incessante pelo desenvolvimento e por melhor qualidade de vida gerou, paradoxalmente, um grande desencanto pela vida, uma profunda melancolia e cansaço diante da vida. O fato deve-se justamente a que nessa busca pela vida em plenitude, esquecemo-nos de considerar todos os aspectos e dimensões da integralidade humana. A vida é um complexo dinâmico, que sempre pode apresentar novas faces. Não há como encerrá-la em conceitos fechados ou em estruturas quadradas, porque ela sempre será exuberante e romperá qualquer barreira para ver a luz que lhe é própria.
Qualquer um que tente encerrar e manusear a vida usando-a para a sua própria promoção, satisfação e lucro, verá que ela responde a seu tempo e proclama sua independência surpreendendo aqueles mesmos que a querem manipular. A ciência excluiu, em princípio, as perguntas filosóficas acerca da origem e do significado da existência humana. Contudo, percebemos uma busca incontida, silenciosa ou evidente, pelo sentido último da vida. Coisa que a ciência, por si só, não consegue dar conta, até porque não se preocupa em dar respostas subjetivas, mas apenas em responder friamente sobre os problemas biológicos. Segundo Bellino (1993, p. 107 e 109),

encontramo-nos diante de uma ciência sem conhecimento, uma ciência que conhece, mas não pensa. (...) O problema central de nossa civilização é precisamente o da estranheza e da reificação do mundo, da fratura entre o espírito subjetivo e o espírito objetivo e de como se possa superar a relação de alienação entre a pessoa, a estrutura sociocultural e a técnico-estrutural.

O universo científico não pode se fechar na objetividade, mas deve levar em consideração o espírito subjetivo, a dimensão espiritual do ser humano. A ruptura entre o objetivo e o subjetivo produz males incalculáveis. Entre os primeiros prejuízos dessa quebra podemos elencar o descaso com a vida do ser humano, seja através da aprovação de leis como a liberação do aborto ou a permissão de desmatamentos, poluição de rios e mares por grandes ou pequenas indústrias, só para dar alguns exemplos.
Cuidar da vida em sua plenitude é considerar todos os aspectos da vida humana e sua relação com a terra e o universo. Constatamos, pela pesquisa feita, que o ser humano, na exploração e utilização da terra e do que ela oferece para a sobrevivência, acabou por desgastá-la. No momento, acontece uma volta à valorização das riquezas naturais, contudo, é urgente a tomada de consciência e a efetivação de atos que possam salvar a vida e promovê-la.
Como desenvolver a prática do cuidado com a vida em sua totalidade? Este é um grande desafio que se apresenta a todos, mas principalmente aqueles que têm qualquer responsabilidade com o todo, ou com grupos sociais, tais como: governos, professores, pais, responsáveis por grupos diversos. A prática do cuidado com a vida começa dentro de cada ser humano que é concebido com respeito, amor e cuidado. À medida que ele se desenvolve sabendo-se amado e respeitado, consequentemente saberá respeitar e amar tudo o que está a sua volta. Dessa forma, desenvolvem-se na consciência de cada pessoa valores éticos fundamentais para cuidar da vida em sua plenitude.



















BIBLIOGRAFIA
BELLINO, Francesco. Fundamentos da Bioética: aspectos antropológicos, ontológicos e morais. Bauru: Edusc, 1997.
BOFF, Leonardo. Ética da Vida: a nova centralidade. Rio de Janeiro: Record, 2009.
______________. Ética da Vida. Rio de Janeiro: Sextante, 2005.
______________. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
MURARO, Rose Marie. BOFF, Leonardo. Feminino e Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
PIN, Silvana Aparecida. O Homem e a Mulher no Desígnio de Deus Criador. Salvador, 2008. Trabalho de Conclusão de Curso. Não publicado.
TORRALBA ROSELLÓ, Francesc. Antropologia do Cuidar. Petrópolis: Vozes, 2009.


[1] As atitudes de cada um de nós, muitas vezes, são egoístas, pensamos em nosso próprio bem, em nosso dinheiro, poder, prestígio social e essas ações provocam transformações que prejudicam a terra e a vida. Podemos considerar os prejuízos causados por grandes desmatamentos, queimadas, poluição. Isso provoca um desequilíbrio na cadeia da vida alimentada pela terra. Essas mesmas ações provocam doenças, epidemias, catástrofes ambientais que destroem a nossa vida e a vida da terra.
[2] Preocupação com a totalidade é entendida aqui como preocupação com o todo do universo e o impacto que nossas ações individuais provocam nas relações do universo como um todo.