1 Introdução
Hegel,
no início de sua obra “Enciclopédia das ciências filosóficas” diz:
pode-se
talvez dizer que em nosso tempo a Filosofia não desfruta nenhum favor e
simpatia particular, pelo menos não aquele reconhecimento de outrora que fazia
dos estudos da Filosofia a imprescindível introdução e alicerce para qualquer
formação científica ou profissional (HEGEL, 1997).
Hoje
não parece que está diferente a situação da Filosofia. Geralmente não
encontramos a Filosofia no imaginário das pessoas como algo útil para a vida, sendo
que muitos não se dão ao “trabalho” de pensar, mas entendemos que seja
extremamente importante pararmos para refletir sobre determinados
acontecimentos que nos cercam e nos preocupam. Um deles é a preocupação com o
destino do nosso planeta e o cuidado que devemos ter com a vida que nele
habita. Esta pesquisa tem como objetivo refletir sobre os problemas advindos da
exploração dos recursos naturais sem uma preocupação com os prejuízos
provocados e suas consequências para a vida como um todo. Para isso contamos
com a reflexão e contribuição dos filósofos que têm como ocupação principal
refletir e questionar as implicações decorrentes das atitudes humanas.
Ao
longo da história da Filosofia, desde os seus inícios até nossos tempos, muitos
homens e mulheres tiveram a preocupação de analisar e questionar o modo de ser
e agir das pessoas. Atitudes do cotidiano e formas de pensar influenciam no
todo da sociedade humana mudando aos poucos ou rapidamente as maneiras de
comportamento individual e, consequentemente, social. O ser humano, como ser
relacional, sabe que seu modo de ser influencia o seu ambiente e para além dele
pode até influenciar formas de pensar e ser que atingem toda a humanidade.
Entendemos que, para o homem, o mundo é uma realidade
objetiva, independente dele, possível de ser conhecida. É fundamental, contudo,
partirmos de que o homem, ser de relações e não só de contatos, não apenas está
no mundo, mas com o mundo. Estar com o mundo resulta de sua abertura à
realidade, que o faz ser o ente de relações que é. (FREIRE, 1999, p. 47)
“Estar com o mundo”, nas palavras de Freire
(1999) e ao nosso entender, significa estar em conexão com o todo do universo,
na preocupação de que todos possam continuar a existir. A humanidade é apenas
uma parte, ainda que muito importante, do todo universal que lhe dá suporte.
Respeitar a vida que existe no universo é condição para continuarmos a existir.
Na mesma esteira de pensamento encontramos Boff (2004) que diz que é preciso
construirmos um novo estado de consciência a fim de criarmos uma atitude de
maturidade e sabedoria que nos conduza a busca de novos caminhos, que sejam
diferentes e mais sensatos daqueles trilhados até agora. Para isso é necessário
que haja a reflexão, a conscientização e a formação de opinião que leve à
mudanças radicais na forma de ser e de viver das pessoas.
Para corroborar com esse pensamento chamamos
novamente Freire (1996, p. 30-31), pensador e homem de ação, que procurou
despertar nas pessoas a consciência de que cada um pode se tornar sujeito de
sua própria vida. A partir do momento em que somos sujeitos de nossas próprias
ações passamos a viver a partir de uma nova ótica e de uma responsabilidade
comum. Ele dizia:
ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as
possibilidades para a sua produção ou a sua construção. (...) Por que não
discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina
cujo conteúdo se ensina, a realidade agressiva em que a violência é a constante
e a convivência das pessoas é muito maior com a morte do que com a vida? Por que
não estabelecer uma intimidade entre os saberes curriculares fundamentais aos
alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? Por que não
discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso dos
dominantes pelas áreas pobres da cidade? Porque, dirá um educador
reacionariamente pragmático, a escola não tem nada que ver com isso. A escola
não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos, transferi-los aos alunos.
Aprendidos, estes operam por si mesmos.
Trazemos
esta reflexão para dizer que precisamos necessariamente conscientizar as
pessoas de que a vida deve estar em primeiro plano. Essa conscientização
acontece quando há uma nova forma de entender o mundo, começando nas famílias,
nas escolas, nas universidades. As ideologias do sistema capitalista têm
colaborado, e muito, para tornar as pessoas egoístas, individualistas e
consumidoras desenfreadas. Reverter essa forma de pensar e viver é um desafio
enorme quando nos propomos apontar as falhas e ajudar a entender os prejuízos
gerados pela busca incessante de lucro.
O
filme “A história das coisas”[1]
aponta que “o coração do sistema” é o consumismo e que nesse sistema não está
contemplada a preocupação com a qualidade de vida das pessoas. Somos
incentivados a consumir cada vez mais para alimentar o sistema e gerar lucro e
não questionamos sobre os prejuízos causados por essa forma de viver. Nesse
sentido reflete Freire (1999, p. 51-52):
uma das grandes, senão a maior, tragédia do homem
moderno, está em que hoje é dominado pela força dos mitos e comandado pela
publicidade organizada, ideológica ou não, e por isso vem renunciando cada vez,
sem o saber, à sua capacidade de decidir. Vem sendo expulso da órbita das
decisões. As tarefas de seu tempo não são captadas pelo homem simples, mas a ele
apresentadas por uma ‘elite’ que as interpreta e lhas entrega em forma de
receita, de prescrição a ser seguida. E, quando julga que se salva seguindo as
prescrições, afoga-se no anonimato nivelador da massificação, sem esperança e
sem fé, domesticado e acomodado; já não é sujeito. Rebaixa-se a puro objeto.
Coisifica-se. Apesar de seu disfarce de iniciativa e otimismo, o homem moderno
está esmagado por um profundo sentimento de impotência que o faz olhar
fixamente e, como que paralisado, para as catástrofes que se avizinham.
Percebemos nitidamente essa dominação do
sistema sobre as pessoas quando vemos tantas vidas sendo destruídas a serviço
do lucro. Aqui podemos citar, a título de exemplo, os trabalhadores da fumicultura
ou outros cultivares que necessitam de muitos agrotóxicos para produzir. A vida
dessas pessoas está em constante risco e destruição, contudo não há uma
preocupação com a qualidade de vida das pessoas e sim com a geração de lucro
para as empresas. Some-se a isso que o lucro dos produtores é o mínimo, e se
for levado em conta que a sua saúde está sendo destruída, podemos dizer que
eles estão tendo um grande prejuízo.
Essa etapa do estudo constitui-se de pesquisa
bibliográfica, de apresentações em seminários e de pesquisa de campo, através
de contato com as Secretarias da Agricultura de alguns municípios da região
para levantamento de dados sobre a existência de produtores orgânicos na
região. O levantamento de dados de produtores orgânicos na região, foi feito
através de contato telefônico, como consta a tabela 1. Percebemos que, alguns dos
responsáveis pelas Secretarias da Agricultura não têm muito conhecimento sobre
o que significam produtores orgânicos, outros explicaram que é muito difícil
chegar a uma produção inteiramente orgânica e outros, ainda, disseram que
existem dificuldades de se conseguir o certificado de produção orgânica.
Levando em consideração essas colocações, iniciamos
uma pesquisa sobre o significado, a viabilização e a expansão da Agricultura Orgânica.
Dos municípios que foram contatados pouquíssimos tem alguma produção orgânica
de alimentos e nenhum possui certificação. Na tabela a seguir estão expressos
os resultados da pesquisa.
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Municípios da região e sua situação com
relação
à produção de alimentos orgânicos
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Município
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Telefone
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Produção
de alimentos orgânicos
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Alpestre
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(55) 3796 1122
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Não possui cadastro de produtores de alimentos
orgânicos, mas estão organizando um banco de dados para este ano.
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Boa Vista das Missões
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(55) 3747 1090
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Não tem produtores de alimentos orgânicos.
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Caiçara
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(55) 3738 1212
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Possui alguns produtores de alimentos orgânicos,
mas não são cadastrados.
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Dois Irmãos das Missões
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(55) 3751 1051
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Não tem produtores de alimentos orgânicos.
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Palmitinho
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(55) 3791 1123
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Não tem produtores de alimentos orgânicos.
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Pinhal
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(55) 3754 1105
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Não tem produtores de alimentos orgânicos.
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Pinheirinho do Vale
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(55) 3792 1160
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Possui dois produtores de alimentos orgânicos, que
comercializam em feiras, mas a produção não é totalmente isenta de
agrotóxicos.
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Seberi
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(55) 3746 1122
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Possui uma agroindústria de chás medicinais
orgânicos, mas que ainda não recebeu certificação.
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Taquaruçu do Sul
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(55) 3739 1080
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Não possui produtores de alimentos orgânicos.
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Derrubadas
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(55) 3551 1854
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Não possui produtores de alimentos orgânicos.
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Erval Seco
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(55) 3748 1188
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Tem alguns produtores de alimentos orgânicos em
fase inicial, de preparação do solo e cultivo de sementes, como amendoim,
gergelim e girassol. Como é uma fase de estágio, ainda não possuem
certificado.
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Iraí
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(55) 3745 1288
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Não tem produtores de alimentos orgânicos.
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Jaboticaba
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(55) 3743 1122
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O município já teve produção orgânica, em parceria
com o Colégio Agrícola de Frederico Westphalen, há uns 3 anos, mas no momento
não tem mais produtores de alimentos orgânicos.
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Rodeio Bonito
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(55) 3798 1155
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Não têm produtores de alimentos orgânicos.
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Vista Gaúcha
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(55) 3552 1160
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O município tem produtores de alimentos orgânicos,
como laranja e verduras, mas não tem certificado ainda.
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Vista Alegre
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(55) 3730 1020
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Possui produtores de alimentos orgânicos.
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Frederico Westphalen
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(55) 37446784
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Não possui produtores de alimentos orgânicos.
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Tabela 1 –
produtores de alimentos orgânicos na região
Agricultura Ecológica é um termo utilizado para
designar modelos de agricultura que se preocupam em preservar a vida do solo,
das plantas e das pessoas que são os consumidores finais, na maioria das vezes,
dos produtos gerados. Essa forma de cultivo procura manejar de forma correta os
recursos naturais. Segundo Penteado (2000, p. 1),
a Agricultura Ecológica é um sistema de produção
comprometido com a saúde, a ética e a cidadania do ser humano, em contribuir
para preservar a vida e a natureza. Busca utilizar de forma sustentável e
racional os recursos naturais, empregando métodos tradicionais e as mais
recentes tecnologias ecológicas na exploração da terra.
O ramo de maior atividade dentro da Agricultura
Ecológica é o orgânico. O sistema de produção orgânica não utiliza insumos
sintéticos, como fertilizantes, pesticidas, reguladores de crescimento e aditivos
alimentares, no caso dos animais. Esse sistema de produção usa a prática de
cultivos rotativos, adubos orgânicos, adubos verdes, controle do uso do solo,
entre outros. Dessa forma, a produção de alimentos produz impacto benéfico
sobre o meio ambiente e sobre a saúde humana. Além disso, pode ser uma fonte de
renda e de geração de empregos.
Penteado (2000, p. 2, 7) define os benefícios da
Agricultura Orgânica da seguinte forma:
na Agricultura Orgânica busca-se a qualidade de
vida, evitando danos à saúde do homem, degradação do meio ambiente, perdas de
resistência das plantas e os prejuízos à população de inimigos naturais. [...]
Enquanto a agricultura convencional está baseada na tecnologia de produtos
(inseticida, herbicida, fungicida, nematicida, bactericida, adubos solúveis,
etc.) a Orgânica trabalha com a tecnologia de processo, ou seja, no conjunto de
procedimentos que envolvem a planta, o solo e as condições climáticas.
Consideramos de grande importância essa forma de
cultivo, pois no contexto desta pesquisa vem responder ao cuidado com a terra e
a vida, o qual viemos salientando sempre de novo. Precisamos incentivar essa
prática e procurar junto ao poder público verbas que possam ajudar os
agricultores que se comprometam com essa forma de produção.
3 Conclusão
As respostas aos problemas levantados na pesquisa
não se encontram prontas e dadas, elas podem ser buscadas num caminho coletivo
que se constrói dentro de um grande conjunto de fatores a serem levados em
consideração, como incentivo a uma vida mais saudável, cuidado com o ambiente,
financiamentos para a produção orgânica de alimentos. Parte desse trabalho de
pesquisa é também procurar as soluções, e de começo procuramos conscientizar as
pessoas e fazê-las refletir a respeito dos problemas gerados pela forma de ser
e de viver, pela maneira de tratar a terra e a vida. Os resultados se fazem ver
de forma tímida, mas crescente, à medida que as pessoas tomam consciência da
necessidade de uma forma de viver que seja mais saudável para si mesmas e de
cuidado para com o planeta. Sempre levando em conta que
cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto,
abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma
atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento
afetivo com o outro [...]. Um computador e um robô não têm condições de cuidar
do meio ambiente, de chorar sobre as desgraças dos outros e de rejubilar-se com
a alegria do amigo. Um computador não tem coração. Só nós humanos podemos
sentar-nos à mesa com o amigo frustrado, colocar-lhe a mão no ombro, tomar com
ele um copo de cerveja e trazer-lhe consolação e esperança. Construímos o mundo
a partir de laços afetivos. Esses laços tornam as pessoas e as situações
preciosas, portadoras de valor. Preocupamo-nos com elas. Tomamos tempo para
dedicar-nos a elas. Sentimos responsabilidade pelo laço que cresceu entre nós e
os outros. A categoria cuidado recolhe todo esse modo de ser. Mostra como
funcionamos enquanto seres humanos” (2004, p. 33, 99).
O cuidado com a terra e com a vida, objeto de estudo
dessa pesquisa, deve estar em primeiro plano. Como já dissemos, esse cuidado
deve estar acima de qualquer preocupação com o lucro, ou com a manutenção do
sistema. Esse foi criado pelas pessoas e se ele não está funcionando, ou
melhor, se está prejudicando, é responsabilidade das pessoas que o criaram
questioná-lo e mudá-lo. Sabemos que isso não é tarefa fácil e nem simples,
contudo temos a convicção de que estamos fazendo a nossa parte ao refletir e ajudar
na busca de soluções para resolver os problemas apontados.
As ressonâncias do cuidado se refletem no amor como
fenômeno biológico que faz os seres humanos se sentirem interligados consigo
mesmos e com o universo que os cerca. Juntamente com o amor vem a “regra de
ouro”, a justa medida, “que se alcança pelo reconhecimento realista, pela
aceitação humilde e pela ótima utilização dos limites, conferindo
sustentabilidade a todos os fenômenos e processos, à Terra, às sociedades e às
pessoas.” (BOFF, 2004, p.112).
A complexidade da presente pesquisa está no desafio de encontrar espaço num sistema que não respeita a vida, mas que visa o desenvolvimento econômico e a geração de lucros exorbitantes, que se tornam prejudiciais à sobrevivência humana e planetária. Quase não encontramos espaço para refletir sobre o respeito e conservação da vida, nem mesmo dentro das nossas universidades. Dessa forma, podemos nos perguntar: como será possível formar uma consciência de cuidado com a vida e tomar atitudes que não visem somente lucros econômicos, mas que sejam capazes de desenvolver qualidade de vida?
Assim como não posso usar minha liberdade de fazer
coisas, de indagar, de caminhar, de agir, de criticar para esmagar a liberdade
dos outros de fazer e de ser, assim também não poderia ser livre para usar os
avanços científicos e tecnológicos que levam milhares de pessoas à desesperança.
Não se trata, acrescentemos, de inibir a pesquisa e frear os avanços, mas de
pô-los a serviço dos seres humanos. A aplicação dos avanços tecnológicos com o
sacrifício de milhares de pessoas é um exemplo a mais de quanto podemos ser
transgressores da ética universal do ser humano e o fazemos em favor de uma
ética pequena, a do mercado, a do lucro. Entre as transgressões à ética
universal do ser humano, sujeito à penalidade, deveria estar a que implicasse a
falta de trabalho a um sem-número de gentes, a sua desesperação e a sua morte
em vida (FREIRE, 1967, p. 131).
Como desenvolver a prática do cuidado com a
vida em sua totalidade? Este é um grande desafio que se apresenta a todos, mas
principalmente aqueles que têm qualquer responsabilidade com o todo, ou com
grupos sociais, tais como: governos, professores, famílias, responsáveis por
grupos diversos. A prática do cuidado com a vida começa dentro de cada ser
humano que é concebido com respeito, amor e cuidado. À medida que ele se
desenvolve sabendo-se amado e respeitado, consequentemente saberá respeitar e
amar tudo o que está a sua volta. Dessa forma, desenvolvem-se na consciência de
cada pessoa valores éticos fundamentais para cuidar da vida em sua plenitude.
Pretendemos avançar em nossa pesquisa buscando
formas de conscientização das pessoas para que procurem mais qualidade de vida,
respeitando os ecossistemas e a biodiversidade.
Na verdade, precisamos formar uma nova visão de mundo baseada em princípios
éticos fundamentais, para que as pessoas se deem conta de que é necessário um
novo modo de ser no mundo e de ver o mundo. Ou seja, é necessário levar em
conta que a terra é um organismo vivo, dotado de partes insubstituíveis e
não-renováveis e de que cada coisa possui uma finalidade inata. Essa consciência
nos fará olhar com mais respeito e consideração àquela que é nossa fonte de
vida e subsistência, a terra.
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